Estou dentro dos grandes sonhos da
noite: pois o agora já é de noite. E canto a passagem do tempo: sou ainda a
rainha dos medas e dos persas e sou também a minha lenta evolução que se lança
como uma ponte levadiça num futuro cujas névoas leitosas já respiro hoje. Minha
aura é mistério de vida. Eu me ultrapasso abdicando de mim e então sou o mundo:
sigo a voz do mundo, eu mesma de súbito com voz única.
Pois logo a mim, tão cheia de garras e
sonhos, coubera arrancar de seu coração a flecha farpada. De chofre
explicava-se para que eu nascera com mão dura, e para que eu nascera sem nojo
da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para
arrancar os teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve
essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te
doe demais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável, pois
a vida me foi dada. Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para
ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto - uivaram os lobos e
olharam intimidadas as próprias garras antes de se aconchegarem um no outro
para amar e dormir.
Sonhe com aquilo que você quer ser, porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce. Dificuldades para fazê-la forte. Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não tem as melhores
coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam, para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas.
Não entendo. Isso é tão vasto que
ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode
não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não
entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de
espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como
ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só
que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais:
mas pelo menos entender que não entendo.
... Uma das coisas que aprendi é que se
deve viver apesar de. Apesar de se deve comer. Apesar de se deve amar. Apesar de
se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para
frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora
de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para
você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu
corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira,
com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto
tempo for preciso.
Ah, e dizer que isto vai acabar, que
por si mesmo não pode durar. Não, ela não está se referindo ao fogo, refere-se
ao que sente. O que sente nunca dura, o que sente sempre acaba, e pode nunca
mais voltar. Encarniça-se então sobre o momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce
arde, arde, flameja. Então, ela que sabe que tudo vai acabar, pega a mão livre
do homem, e ao prendê-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja.
Sendo este um jornal por excelência, e
por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito:
precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente
porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e
precisa reparti-la. Se Paga extraordinariamente bem: minuto por minuto se paga
com a própria alegria. É urgente, pois a alegria dessa pessoa é fugaz como
estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram;
precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e
nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio
só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que
venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que
a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha,
implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também
uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito
de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de
prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas
juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.
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